
Por Jeferson di Pádua
Nota: 09.0/10.0
Formada em 1995, em Itapetininga, no interior de São Paulo, a VULTURE construiu uma trajetória de mais de três décadas dedicada ao Death Metal, acumulando cinco álbuns de estúdio e uma respeitável presença na cena extrema brasileira. Seis anos após The End of Agony (2020), o grupo retorna com Apostasy Campaign, seu sexto registro de inéditas, composto por dez faixas que exploram temas como fanatismo religioso, guerras, manipulação, decadência moral e alienação. Mais do que direcionar suas críticas às instituições, o trabalho propõe uma reflexão sobre a capacidade humana de transformar crenças em instrumentos de dominação e violência. O resultado é um disco que preserva a identidade brutal do quarteto, mas demonstra maior atenção ao equilíbrio entre agressividade, melodia e construção atmosférica.
Na linha de frente, Adauto Xavier, responsável pelos vocais e pela guitarra solo, demonstra segurança tanto na condução das composições quanto na execução dos riffs e solos. Sua interpretação vocal mantém a aspereza necessária para sustentar a proposta do álbum, enquanto as intervenções melódicas acrescentam dinamismo ao repertório. Um dos melhores exemplos está em “Over the Bloodshed”, que se destaca pela combinação de guitarras incisivas, andamento agressivo e uma abordagem temática contundente sobre autoritarismo, manipulação e violência. Ao seu lado, Yuri Schumann, na guitarra base e nos backing vocals, oferece uma sustentação consistente, criando camadas rítmicas que ampliam a densidade das composições sem comprometer sua objetividade. A parceria entre os dois guitarristas é um dos pontos fortes do disco, especialmente pela maneira como alterna peso e passagens melódicas.
Outro momento de destaque é “Cega Devoção”, uma das composições mais interessantes do álbum tanto pela temática quanto pela construção musical. A faixa amplia a discussão sobre o fanatismo religioso ao abordar o excesso de informações, a desinformação e a fabricação de certezas como mecanismos de manipulação coletiva. Musicalmente, a composição apresenta uma atmosfera particularmente sombria, sem abrir mão da contundência característica do grupo. O baixista Mateus Barros também merece reconhecimento por conferir sustentação às estruturas, reforçando o peso das guitarras e contribuindo para a coesão da seção rítmica. Já em “Living in Apostasy”, a banda encontra uma síntese bastante representativa da proposta do trabalho, explorando a ideia de ruptura com dogmas por meio de uma construção que alterna agressividade, variações de andamento e passagens melódicas.
Na bateria, Nelson Junior demonstra precisão e bom senso ao conduzir as dez composições, acompanhando as mudanças de intensidade sem transformar sua performance em uma exibição técnica desnecessária. Seu desempenho é especialmente importante para manter a fluidez de um repertório que exige velocidade, consistência e controle das dinâmicas. A interação entre os quatro músicos faz com que Apostasy Campaign funcione como uma obra coesa, na qual nenhum instrumento parece disputar espaço com os demais. Outro acerto está na produção de Fernando Roma, responsável pela gravação, mixagem e masterização no Fraktal Studio. O resultado apresenta guitarras bem definidas, seção rítmica encorpada e vocais posicionados com clareza, preservando a aspereza que combina com a identidade da VULTURE.
Sem recorrer a modernizações artificiais ou abandonar os fundamentos que sustentam sua trajetória, a VULTURE entrega em Apostasy Campaign um trabalho consistente, maduro e tematicamente relevante. A escolha de assuntos que ultrapassam os limites da crítica religiosa, alcançando questões políticas e comportamentais, acrescenta profundidade ao repertório, enquanto a combinação de brutalidade e melodia evita que as dez faixas se tornem excessivamente uniformes. Embora a familiaridade com determinados elementos do Death Metal tradicional seja perceptível, a banda consegue utilizá-los em benefício de sua própria identidade. A arte de capa de Cayo Faria, inspirada na pintura clássica e simbolizando a ruptura com antigos dogmas, complementa a proposta conceitual. Lançado pela UBL – Union of Black Labels, Apostasy Campaign confirma que a experiência acumulada ao longo de mais de 30 anos continua sendo um dos principais trunfos de uma das formações veteranas do Metal extremo nacional.

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