
Por Jeferson di Pádua
Nota: 09.0/10.0
O single “Eyes of the Observer”, do OVER RAGE, apresenta uma faceta sombria e atmosférica do Heavy/Thrash Metal desenvolvido pelo grupo paulista. Lançada em 30 de setembro de 2024, a faixa marcou o segundo lançamento da retomada do projeto liderado pelo guitarrista Aloisio Mello, sucedendo “Shadows of the Condemned”. Com produção de Adriano Daga, profissional conhecido por trabalhos com Angra e Almah, a composição aposta em uma abordagem que vai além da agressividade instrumental, combinando peso, tensão e um direcionamento conceitual. O resultado revela uma banda interessada em construir uma identidade que preserve as raízes do Metal tradicional, mas também explore nuances mais contemporâneas.
A trajetória do OVER RAGE começou em 2006, em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Após os primeiros anos de atividade e um hiato iniciado em 2008, Aloisio Mello seguiu trabalhando com música e fundou, em 2013, o grupo de Thrash Metal Viociety, com o qual gravou o EP Instinct e participou de festivais e apresentações ao lado de nomes como Matanza e Torture Squad. A retomada do OVER RAGE, em 2024, trouxe uma formação renovada, reunindo Fernando Kolmar, conhecido como Feu, nos vocais; Bruno Luiz na guitarra; Rich Gray, integrante do Annihilator, no baixo; e Felipe Milk na bateria e orquestração. Essa reunião de músicos experientes contribui para a consistência da proposta, embora a personalidade do projeto dependa, sobretudo, da capacidade de transformar referências conhecidas em uma linguagem própria.
Um dos aspectos mais interessantes de “Eyes of the Observer” está em seu conceito lírico. A figura de um observador silencioso acompanha os acontecimentos humanos sem interferir diretamente neles, testemunhando sentimentos e experiências que vão do medo à esperança, passando pelo fracasso, pela vitória e pelo desespero. Essa perspectiva confere à composição um caráter introspectivo e quase cinematográfico, no qual a sensação de vigilância constante se conecta à reflexão sobre a condição humana. A imagem de uma luz silenciosa em meio à escuridão reforça o contraste entre aquilo que permanece oculto e o que acaba sendo revelado. Em vez de recorrer apenas a temas sombrios como recurso estético, o OVER RAGE utiliza essa atmosfera para explorar questões existenciais, dando à música uma dimensão narrativa que merece atenção.
A interpretação vocal de Fernando Kolmar “Feu” é fundamental para sustentar a carga dramática da faixa, enquanto Bruno Luiz acrescenta outra camada de peso à construção das guitarras. A base formada pelo baixista Rich Gray e pelo baterista Felipe Milk contribui para manter a estrutura firme, sem impedir que a música desenvolva uma ambientação mais densa do que a abordagem direta frequentemente associada ao Thrash Metal. A produção de Adriano Daga favorece essa combinação, conferindo definição ao conjunto e valorizando os contrastes entre intensidade e atmosfera. Ainda assim, a opção por uma construção fortemente conceitual pode tornar a experiência menos imediata para quem procura uma composição concentrada em velocidade e impacto contínuo. A escolha, porém, é coerente com a proposta artística apresentada pelo grupo.
A dimensão pessoal do projeto ajuda a compreender a intenção por trás de “Eyes of the Observer”. Em declarações divulgadas à imprensa, Aloisio Mello relacionou a criação do OVER RAGE à própria experiência de superação da depressão, destacando a música como um meio de transformar momentos difíceis em expressão artística e esperança para outras pessoas que enfrentam conflitos internos. Essa perspectiva aproxima o single de “Shadows of the Condemned” e “Echoes of Secrets”, composições que integram o universo de Visions of the Abyss pt. 1, EP concebido em torno de temas como inquietação, sofrimento e condição humana. No balanço final, “Eyes of the Observer” não pretende reinventar o Heavy/Thrash Metal, mas encontra seu diferencial na combinação entre instrumentação pesada, atmosfera sombria e conteúdo reflexivo. É uma faixa que evidencia a ambição conceitual do OVER RAGE e estabelece uma base promissora para o desenvolvimento de sua identidade musical.

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