
Por Jeferson di Pádua
Nota: 09.0/10.0
Há trabalhos que simplesmente revisitam uma sonoridade e outros que parecem compreender profundamente o espírito que a originou. “Incognito”, álbum de estreia da MAD SNEAKS, pertence à segunda categoria. Lançado em 7 de março de 2026, o disco apresenta uma releitura em inglês de “Incógnita”, trabalho originalmente lançado em 2012, preservando a essência do material e reforçando sua conexão com o Grunge e o Rock Alternativo dos anos 1990. A proposta também chama atenção pela forma de distribuição: o registro está disponível oficialmente pelo Bandcamp e em edição física limitada, uma escolha coerente com a postura orgânica defendida pelo trio.
A carga emocional é intensa, mas nunca transforma o repertório em uma simples reprodução nostálgica da cena de Seattle. Há sujeira, distorção, dinâmica e uma atmosfera deliberadamente áspera, elementos que remetem principalmente aos melhores momentos de Nirvana e Alice in Chains, embora a balança pese mais para o primeiro. A abertura com “Dead Killer” já chega chutando a porta, sustentada por guitarras encorpadas e uma interpretação visceral de Agno Dissan. A participação de Page Hamilton, vocalista, guitarrista e líder do Helmet, acrescenta uma camada particularmente interessante ao resultado, além de ampliar o diálogo entre o Grunge e o Rock Alternativo de maior peso. Hamilton também produziu a faixa, que aborda de maneira figurada a depressão e seus efeitos sobre a mente.
Se “Dead Killer” estabelece o tom com contundência, “The Cure”, “Pandora” e “Dirty Blood” mostram que o grupo não depende exclusivamente de volume ou distorção para sustentar sua identidade. As composições trabalham com contrastes, alternando momentos de maior contenção e explosões elétricas, enquanto as dissonâncias aparecem como recurso estético e não como mero ornamento. “Pandora”, por exemplo, ganha força justamente ao explorar uma introdução mais limpa antes de ampliar sua intensidade, evidenciando também a capacidade vocal de Agno. Essa combinação entre aspereza e sensibilidade ajuda a explicar por que o repertório permanece conectado à tradição noventista sem soar completamente preso a ela.
“Dirty Blood” merece atenção especial pelo peso emocional e pela maneira como transforma conflitos internos em matéria sonora. A faixa também ganhou uma dimensão visual em seu videoclipe, construído com imagens de personagens mascarados, fogo e sombras para representar medo, identidade e libertação. Já “Medeleine” e “Biocide” ampliam o alcance do álbum e reforçam a consistência de um repertório que consegue manter unidade sem cair na repetição. O resultado é um conjunto que alterna agressividade, melancolia e tensão com naturalidade, preservando aquela sensação de urgência tão característica do Rock Alternativo produzido fora das fórmulas mais polidas.
Entre os músicos, Agno Dissan aparece como o principal destaque. Sua atuação na guitarra é fundamental para a construção das texturas densas do disco, enquanto os vocais transitam entre passagens mais limpas e ataques rasgados com boa propriedade. Ao lado de Amaury Johns, na bateria, e Phill Andreas, no baixo, o guitarrista e vocalista sustenta a formação atual do trio com uma abordagem que privilegia impacto, espontaneidade e organicidade. A própria trajetória do grupo ajuda a dimensionar essa identidade: antes de “Incognito”, a MAD SNEAKS já havia trabalhado com Jack Endino, produtor associado a nomes fundamentais de Seattle, e com Toby Wright, além de ter dividido sua história recente com artistas de peso como Page Hamilton.
A presença de Jack Endino nas sessões originais é outro elemento que dá ao álbum um peso histórico considerável. O produtor trabalhou com nomes como Nirvana, Soundgarden e Mudhoney, e sua participação aproxima ainda mais a obra das raízes que inspiraram o trio. Mais do que uma tentativa de reproduzir uma época, “Incognito” funciona como uma declaração de identidade: a MAD SNEAKS entende que o Grunge pode ser revisitado sem perder sua imperfeição, sua força e seu caráter emocional. O resultado é um registro vigoroso, carregado de personalidade e suficientemente áspero para agradar tanto quem viveu o auge daquele movimento quanto ouvintes que estão descobrindo agora a força do Rock dos anos 1990.

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