
- Para os leitores do site FullRock que não conhecem o trabalho da UGANGA, poderiam descrever os principais pontos da carreira de vocês até aqui?
Manu Joker: Somos uma banda formada no início dos anos 90, fazemos um tipo de crossover onde além do metal e hardcore outros estilos como o rap, dub, doom, trip hop, pós punk e até música brasileira também dão as caras vez ou outra. Já lançamos oito álbuns, alguns também internacionalmente, tocamos em todas as regiões do Brasil e passamos por outros 17 países nas nossas duas tours européias. Estamos a mais de 3 décadas de forma ininterrupta na estrada e tocamos ao lado de bandas/artistas de estilos variados como Exodus, Racionais MCs, Rattus, Krisiun, Corrosion Of Conformity, Câmbio Negro, Crypta, Coroner, The Casualties, Dead Fish, Abbath, Elza Soares ou Vazio, só pra citar alguns nessa salada insana (risos). Estamos num novo momento após mais de 20 anos com o mesmo núcleo de compositores, lançamos um álbum que reflete esse fase e seguimos firmes e olhando pra frente.
- “Ganeshu” é o novo álbum da banda e foi lançado de forma independente, como ele vem sendo recebido até aqui?
Vinícius Luz: Na minha opinião Ganeshu é de verdade o melhor álbum de música pesada do Brasil em 2025. E digo isso sem tê-lo gravado. Muito groove, psicodelia e riffs pesados, acredito que as músicas mais desafiadoras técnicamente do Uganga estão nele. Gostei bastante das partes de guitarra do Jean (Pagani - guitarrista no álbum), ele é um músico fenomenal. É um trabalho que só tem musicas boas e divertidas de tocar, todo mundo do meu círculo de amizades que escutou Ganeshu só tem coisas boas pra falar, e pelas resenhas e recepção na estrada acho que essa aceitação positiva vem se expandindo.
- Um ponto que salta aos olhos no álbum, é que vocês optaram pelo português para passarem as suas mensagens, em detrimento do inglês, algo pouco usual para banda de Crossover. Por qual razão resolveram seguir por este caminho?
Manu Joker: A língua inglesa prevalece no mundo da música, e no crossover não é diferente. Mesmo assim temos grandes bandas que optaram pelo português como Ratos De Porão e Lobotomia. Nós do Uganga também fomos por esse caminho, desde o início lá em 93, quando cantar em inglês era quase uma obrigação. Pra mim antes de tudo trata-se de arte, e a mensagem, a lírica, é parte dessa arte. Para que essa nossa mensagem tenha a força necessária ela precisa vir com a essência das ruas onde crescemos, trazer a nossa maneira mais pura de expressão ao invés de tentar emular algo que não somos. Isso posto vez ou outra inserimos partes em inglês e até espanhol nas músicas e isso deve ocorrer de novo no próximo full, porém como um detalhe e não como língua principal. Somos uma banda do cerrado mineiro, nossa lírica traz referências daqui e assim falamos pro mundo. Se é ou não a melhor escolha comercial isso sinceramente não importa.
- O Som da UGANGA é difícil de ser rotulado, mas eu consegui enxergar similaridades com o Thrash e Hardcore. Vocês concordam com tal afirmativa? Caso não concordem, como vocês se definiriam?
Manu Joker: Nossas referências metal e punk são realmente a base da nossa música, elas sempre chegam primeiro. A diferença é que não raro essas referências básicas vem com o reforço de outros estilos não tão comuns ao público mais ortodoxo da música pesada. Fazemos um tipo de crossover, livre de formatação e diferente de bandas como D.R.I. ou Excel por exemplo. Diga-se de passagem amamos essas duas bandas e outras como Suicidal Tendencies, Cryptic Slaughter, Cro-Mags, S.O.D. ou Crumbsuckers. O lance é que apesar de assumidamente influenciados por todas elas, nós fazemos outro tipo de música, outro tipo de crossover, uma outra encruzilhada.
- Particularmente gostei bastante de “A Profecia”, pois ela meio que sintetiza o que temos em todo o disco. Como vem sendo a aceitação dele com o público, e quais do material vem sendo mais pedidas nos shows da banda?
Juninho Silva: A Profecia’ representa bem o disco porque junta várias atmosferas que a gente explorou no álbum, tem peso, groove e variação de dinâmicas. A aceitação do público tá sendo muito massa, a galera conectou rápido com as músicas do novo álbum e a energia dos shows tá muito foda. Além dela “Tem Fogo!” e “Exu Não Passa Pano” sempre levantam geral também. O retorno tem sido pesado mano, a galera realmente abraçou o álbum.
- A produção do CD é outro fator importante, o que você pode nos dizer sobre o processo de produção de “Ganeshu”?
Manu Joker: Eu dividi a produção com o Gustavo Vazquez (Rocklab Studio - GO), é o quarto lançamento que trabalhamos juntos e cada vez fica mais fácil. Minha parte é organizar as ideias de todos, inclusive as minhas (risos), montar as demos iniciais, a ordem das faixas, focar nas execuções individuais de cada um e depois lapidar com toda da banda na sala de ensaios esse material antes de gravar. Somos uma banda que chega no estúdio como se já estivesse tocando essas músicas na estrada, nada de montar músicas na hora ou emendar bases. Nesse momento o Gustavo assume o comando, timbra e grava tudo e extrai de cada um o seu melhor desempenho. Ele também cuida da mix e da master mas sempre trocamos muita ideia durante esse processo. No fim a gente insere umas participações, alguns poucos overdubs, vinhetas e finalmente temos um novo álbum.
- Confesso que demorei muito para entender a proposta musical de vocês, este tipo de afirmativa tem chegado ao conhecimento de vocês através de outras pessoas? Quais referências musicais vocês buscam no momento de compor as canções da UGANGA?
Manu Joker: Sim, é normal escutarmos que é difícil nos inserir em determinado seguimento da música pesada. Eu concordo, realmente não fazemos um estilo puro. Tudo o que citamos antes nessa conversa entra nessas referências na hora de compor, o crossover clássico oitentista, o hardcore metal noventista de Biohazard, Prong e Helmet, o rap dos anos 90 de nomes como Public Enemy e Sabotage, a música Jamaicana, o metal extremo, o punk e o thrash oldschool, bandas contemporâneas tipo Lamb Of God ou Gojira, música eletrônica, os tambores de Minas Gerais…É muita coisa! Na hora de compor procuramos não pensar em determinado estilo ou determinada banda, mas ao mesmo tempo o que nos marca nos influencia, de maneira proposital ou não. Isso é inegável.
- Recentemente recebi o produto digital e fiquei de queixo caído com a arte da capa. Como ela é muito subjetiva, teria como nos ajudar a compreendê-la?
Manu Joker: A arte é assinada pelo meu amigo Artur Fontenelle (Deadmouse Design) e foi baseada num conceito que criei pro título do álbum, uma entidade fictícia que funde as figuras de Ganesha e Exú. O gato e os garfos representam Exú, a flor de lótus representa Ganesha e as cores usadas também tem conexão com ambas as figuras. Esse conceito fala de diferenças e similaridades e essas duas entidades representam muito bem isso. É um trabalho minimalista e que me agradou bastante.
- Quais os planos da banda para um futuro próximo? Um novo álbum já está sendo composto? Pretendem seguir o mesmo direcionamento musical?
Vinícius Luz: Os planos futuros do Uganga envolvem a composição, gravação e lançamento do 9° álbum, começamos o processo de composição recentemente com a nova formação com a minha entrada na banda juntamente do Igor (Wallace - baixo) e acredito que o som irá mudar um pouco, mas sempre tentando manter a identidade da banda construída ao longo dos anos. Esse novo álbum será mais pesado, estou pegando bastante referências de trabalhos como "Opressor"(2014) e "Ganeshu", estou estudando especialmente dois guitarristas que passaram pelo Uganga, o Thiago Soraggi que fez vários riffs marcantes e me ajudou a construir o timbre da minha guitarra pros shows e o Jean Pagani que vem me inspirando bastante na formação de acordes e solos.
Manu Joker: Se você prestar atenção a nossa discografia verá que os álbuns sempre foram diferentes entre si, mas mantendo sempre o nosso DNA. Isso tem a ver com o processo de composição que é democrático e livre mas ao mesmo tempo entende qual é nossa essência. As pessoas que passaram por essa banda tem gostos musicais distintos e isso acaba refletindo nos nossos trabalhos, é inevitável. Definitivamente não dá pra falar que “Atitude Lotus” (2002), “Vol 3: Caos Carma Conceito” (2010) ou “Ganeshu”(2025) são parecidos, eles com certeza são muito distintos entre si mas todos ajudaram a moldar nosso estilo. Ao mesmo tempo com poucos segundos de audição de qualquer um deles, você já verá que é Uganga. Independente de para qual lado estamos indo em certos momentos, a nossa identidade sempre está lá. Se você pegar o Faith No More como exemplo isso fica muito evidente, discos bem diferentes e uma assinatura muito clara em todos eles, creio que sejamos assim também.
- Obrigado pelo tempo cedido para a equipe da Fullrock, é chegado o momento das considerações finais…
Manu Joker: Considerem ouvir “Ganeshu” na ordem e completo, ao menos uma vez. Pouco mais de 20 minutos que te darão uma boa noção da nossa sonoridade. E se gostarem considerem também ouvir nossos outros trabalhos. Por fim considerem ir em algum show nosso e tomar uma cerveja com a gente. Saúde a todos!

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